Praxis Seminar: Research Colloquium in Practical Philosophy 2021/22, Session 1

Dirk Michael Hennrich

Praxis-CFUL, University of Lisbon

Da ‘metafísica vegetal’ às ‘metafísicas canibais’: Considerações sobre o pensamento selvagem

October 26 2021, 17h00 (Lisbon Time – GMT+1)

Sala Mattos Romão (Departamento de Filosofia) | School of Arts and Humanities – University of Lisbon

(Online streaming via Zoom only by request at praxis.cful [at] gmail.com)

 

Abstract

Perante a iminência da decadência de um certo pensamento domesticado ou civilizado, que ordena quase todas as noções e acções da cultura ocidental, se manifesta cada vez mais a importância de (re-)considerar outras formas de pensar. Estes pensamentos, distintos da atual concepção hegemónica da realidade (ocidental-europeia), sofreram uma marginalização e extinção sem precedentes no percurso da modernidade. Assim, pode-se falar, quase sem dúvida alguma, de uma tentativa multisecular da cultura ocidental-europeia de subjugar e destruir sistematicamente todos os outros possíveis saberes. Durante muito tempo, estes pensamentos, embora sempre fizeram parte da própria cultura racional e científica do Ocidente, foram sujeitos de um “epistemicido” deliberado e considerados como indomesticados, ou noutras palavras, “o Outro da Razão” (Böhme G./H. Böhme, Das Andere der Vernunft, 1985). A este fim, será preciso relembrar que, em paralelo com a destruição e subjugação de pensamentos alheios, o pensamento ocidental sofreu, desde a época do Esclarecimento, de uma profunda domesticação, marginalizando e aniquilando a própria multiplicidade de modos de ver e interpretar o mundo. Todavia, no contexto da atual crise ecológica e civilizatória, ressurge o pensamento indomesticado, supostamente irracional e mítico, por via da interpretação do pensamento selvagem, oriundo sobretudo dos saberes e das culturas autóctones ameríndias. A conferência aqui anunciada, retoma esta discussão com uma leitura dos livros La seducción de la barbarie: análisis herético de un continente mestizo (1953) de Rodolfo Kusch, Le pensée sauvage (1962) de Claude Levi-Strauss e Metafísicas canibais: Elementos para uma antropologia pós-estrutural (2009/2015) de Eduardo Viveiros de Castro. O objetivo é re-traçar o pensamento selvagem no contexto da subjugação e extinção do Outro da Razão e, a sua vez, a partir da consideração de uma certa metafísica vegetal (Kusch) e das assim chamadas metafísicas canibais (Viveiros de Castro).