André Barata
University of Beira Interior
A revolução relacional com a matéria
1 February 2022, 17h00 (Lisbon Time — GMT+0)
Sala Mattos Romão (Departamento de Filosofia) | School of Arts and Humanities – University of Lisbon
Abstract
Na peugada do novo materialismo, procura-se neste texto iluminar o vínculo profundo entre matéria e alteridade como forma de instruir uma razão prática ecológica que supere o antropocentrismo. Este novo materialismo, apesar de nele ressoar um velhíssimo materialismo — o mais velho de todos, o dos pensadores pré-socráticos da φύσις —, opõe-se a boa parte da tradição filosófica, que, reivindique-se ou não do materialismo, tendeu a desvitalizar a matéria, conformando-a a uma passividade inerte, incapaz de relação. Assim se impôs a cesura fundamental entre matéria e alteridade, entre matéria e a sua própria compreensão, na verdade uma orfandade recíproca, pois, na persistência do vínculo latente mas recalcado entre materialidade e alteridade, esta concepção passiva da materialidade também condenou à pobreza as concepções da alteridade. A mesma cesura percorre a história do pensamento no que respeita ao outro, sempre posto de esguelha, pensado por analogia àquele que o apreende, conformando a alteridade à mesmidade, tolerado na medida de uma qualquer semelhança que se ache. O vínculo entre matéria e alteridade surpreende-se na aproximação entre o ἄπειρον de Anaximandro e o infinito de Lévinas, ambos inalcançáveis pelos programas da totalidade. E também na aproximação entre átomo e indivíduo, ambos impenetravelmente indivisíveis, igualmente além das pretensões do conhecimento. Este regime de opressão da matéria surpreende-se no quotidiano dos objectos com que nos rodeamos e das objectivações que nos impomos. Uma crítica da concepção de matéria capaz de libertar a sua potência relacional traria amplas consequências para a compreensão e para o quotidiano de uma coexistência ecológica.



