Imagem e Ideologia: Filosofia-Teoria Política-Psicanálise

December 9, 2020
Colóquio Internacional
9 Dezembro 2020, 10h00 – 16h30 (GMT + 0)

O evento é aberto ao público e não precisa inscrição prévia.

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ID da reunião: 897 4779 7942

Senha de acesso: 294907

 

 

Vivemos a época de uma tempestade de imagens. As imagens, que antes nos ofereceram o poder de moldar e interpretar o mundo, adquirem agora um poder imprevisto sobre nós. Se as imagens pré-históricas eram caracterizadas por uma certa autonomia mágica, sua própria esfera de ação, inexplicáveis ​​para os que viviam no mito, as imagens técnicas, calculadas digitalmente, revelam-se como imprevisíveis tiranos dos nossos muitos mundos individuais e da realidade comum. As imagens que antes libertavam os humanos da realidade bruta, ganharam vida própria e exercem agora um cativeiro mais brutal. E mesmo aqueles que se apoderam das novas imagens e espaços de imagens para projetar as suas doutrinas em uma massa de seguidores desinformados ou pré-formados, que os tornam seguidores e instrumentos de uma certa ideologia e visão de mundo, são prisioneiros dessas mesmas imagens de mundo (Weltbilder). O humano moderno, ocidental-europeu, só quis acreditar no que podia perceber com os seus olhos, as suas lentes óticas e através de uma infinidade de produções de imagens. Hoje, esse entusiasmo tornou-se impossível. Não obstante, as imagens técnicas, animadas pelas discursividades ideológicas gerenciam a fantasia inconsciente e constituem-se também como produtos da venda da força do trabalho da imaginação, que é agora destinada a fornecer imagens para o consumo. E, apesar do controlo que leva à previsibilidade das formas de interpretar a si e o mundo, efeitos imprevistos têm sido cada vez mais percebidos e discutidos acerca da incidência das imagens pré-moldadas na infância e no infantil, e também os efeitos de anestesiamento e indiferença perante as imagens. A sociedade tecno-industrial vive, mais do que nunca, num “nexo de cegueira” (Verblendungszusammenhang) abrangente, cegada pelas imagens, suscetível a uma miríade de visões de mundo e infectada por ideologias recorrentes. A captura do olhar no seu próprio ponto cego e o esvaziamento simbólico da imagem impedem que as imagens se desvinculem da instantaneidade de consumo e que adquiram força para gerar reflexões que possibilitem mudanças paradigmáticas.

 

Programa

(Clique ► para visualizar os resumos)

 

10:00 Abertura/Apresentação: Dirk Michael Hennrich (Praxis, CFUL)

10:15 – 11:45 — Moderador: Dirk Michael Hennrich

Soraya Nour Sckell (Univ. Nova de Lisboa/CFUL), Ideologia: da virada linguística à virada icônica

Abstract: A ideologia, de acordo com A Ideologia Alemã de Marx e Engels, apresenta como universal e abstrato o que é particular e contingente, mascarando as origens históricas das ideias. Assim, qualquer discurso ou enunciado universalista pode se tornar ideológico, o que constitui a dificuldade de toda política baseada na legitimação de princípios — como a política dos Direitos Humanos. A imagem tem caráter particular e concreto, e não universal e abstrato. Mas também qualquer imagem ou representação pode se tornar ideológica quando naturaliza o que é construído. A crítica à ideologia, tanto no discurso como na imagem, depende sempre da questão: quem reivindica ou contesta o discurso ou a imagem? diante de quem? para fazer o quê? por quais meios? Ou seja, depende da “cidadania em exercício”,  da práxis política dos indivíduos.

Ricardo Mendoza-Canales (Praxis, CFUL), Patologias da imaginação: Imagem, estética e ideologia

Abstract: Os efeitos da aceleração das relações produtivas do tardocapitalismo trazem consigo um conjunto de pressões sistémicas que modelam não só a maneira como concebemos a realidade e as nossas práticas sociais, mas também modulam os nossos afectos, desejos e paixões. Neste sentido, a nossa experiência encontra-se submetida a desvios involuntários da nossa racionalidade cujas manifestações podem ser consideradas patológicas. Na minha apresentação, a partir das noções de aceleração e alienação tal como são desenvolvidas pela Teoria Crítica, explorarei os seus efeitos no plano do imaginário individual e social onde se torna ideologia, isto é, uma forma patológica da imaginação. Contudo, proponho que é também na imaginação onde reside o caráter emancipatorio do sujeto, a partir da materialização do possível por meio da vontade e da acção.

 

Almoço

 

13:00 – 14:30 — Moderadora: Luanda Francine Garcia da Costa (Diversitas USP/Brasil)

Luciano Elia (IP-UERJ/Brasil) — A destituição do sentido não é sem a ideologia

Abstract: Ideologia é uma categoria tão fundamental quanto polissêmica, resistindo assim às definições unívocas, tão caras aos conceitos positivistas da ciência. Não por acaso ela é uma espécie de erva daninha das plantações “científicas”. Para a Psicanálise, campo de saber e práxis que não se dá ao direito de ignorar o real, a dimensão ideológica é ineliminável de toda produção subjetiva, incluindo o sujeito do insconsciente. A experiência psicoanalítica navega na rota da redução do sentido, submetendo-o inelutavelmente a este processo. Assim, ela opera a contrario da profusão ideológica, mas advertida de que sua operação não é sem a ideologia, campo fantasmático e imaginário de produção do sentido que se trata justamente de submeter à análise.

Priscilla Santos de Souza (Instituto de Psicologia da USP-Universidade Federal do ABC/Brasil) — A escuta analítica e discursos sobre raça: Contribuições psicanalíticas a partir de Lélia Gonzalez

Abstract: Articular estratégias clínicas e políticas é fundamental para a denúncia dos mecanismos de controle social que excluem e silenciam a dimensão subjetiva, o que possibilita o enfrentamento da dimensão política do sofrimento produzido nas e pelas relações sociais. Utilizaremos o pensamento de Lélia Gonzalez (1935-1994) para a compreensão dos processos que determinaram a grande aceitação de atos, discursos e ideologias racistas, e que apontam para o duplo fenómeno do racismo e também do sexismo como fundamentais para a constituição de neuroses em nossas culturas.

 

30 min intervalo

 

15:00 – 16:30 — Moderador: Ricardo Mendoza-Canales

Marc Lenot (Investigador Independente/França) — Ausência e experimentação fotográficas: para resistir a avalanche das imagens, deve combater um aparelho e seus programas

Abstract: Perante a avalanche das imagens, uma possível reacção é a abstenção, a recusa de fotografar, ou pelo menos de produzir imagens: uma ausência fotográfica. Mas esta profusão de imagens só se pode compreender no âmbito do funcionamento do aparato fotográfico, onde o fotógrafo, segundo a tese de Vilém Flusser (Filosofia da Caixa Preta), é só um funcionário do aparelho. Para resistir ao aparato e a esta profusão alguns fotógrafos desfazem os programas e se tornam experimentais.

Dirk Michael Hennrich (Praxis, CFUL) — Imagem e Verdade: para uma crítica da Necrocultura

Abstract: A modernidade é a época em que o mundo se torna imagem e em que a primazia do sentido visual determina por completo a formação da realidade. Possuído pela imagem e pela ideia da verdade como representação objetiva, a cultura moderna trata todos os fenómenos como objetos, como coisas manipuláveis. A imagem, do latim imago, que designava a máscara mortuária, se consolida ainda mais a partir da descoberta da fotografia, como possibilidade de representação exata, embora ao mesmo tempo como mera reminiscência congelada e morta da vida. A expansão do espaço digital da zero-dimensionalidade e a avalanche de imagens ilimitadamente reproduzíveis, potencializa e completa esta lógica fatal da modernidade e afasta o humano cada vez mais do corpo-vivo e da vida terrestre, que não podem ser possuídas, nem manipuladas como objetos. Deste modo a minha apresentação oferece uma interpretação da idolatria hegemônica da atual cultura midiática, que não apenas em termos sociológicos, mas também em termos ecológicos, é aqui entendida como uma necrocultura. Esta cultura da morte, que se também espelha no atual avanço global da necropolítica, necessita ser enfrentada a partir de uma crítica da imagem técnica e da (re-)introdução de outras formas e possibilidades imaginativas.

 

16:30 Encerramento: Ricardo Mendoza-Canales (Praxis, CFUL)

 

Organização:

Dirk Michael Hennrich (Praxis, CFUL), Luanda Francine Garcia da Costa (Diversitas USP), Ricardo Mendoza-Canales (Praxis, CFUL)