A tensão entre Eurocentrismo e Cosmopolitismo no pensamento antropológico e político de Kant – 1 outubro 2018

October 1, 2018

Palestra inaugural

 

 

Leonel Ribeiro dos Santos

A tensão entre Eurocentrismo e Cosmopolitismo no pensamento antropológico e político de Kant

 

 

01.10.2018

11:00 – 14:00

Sala Matos Romão, Departamento de Filosofia, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

 

Kant é sem dúvida um dos grandes pensadores da ideia cosmopolita, uma ideia que impregna todo o seu programa filosófico, e não apenas o seu pensamento antropo-histórico-político, mas até mesmo o programa da filosofia transcendental crítica, como se tem vindo a reconhecer. Não é sem razão que ele é o pensador mais convocado para os debates atuais em torno do Cosmopolitismo e de quanto com este tema se relaciona. Todavia, a par de uma inabalável fé na unidade e comunidade de destinação de toda a espécie humana e na igualdade e comum dignidade de todos os seres humanos,  encontram-se em alguns dos seus escritos apreciações perturbadoras que aparentemente contradizem essa doutrina, pois ora conferem um mais decisivo papel na história aos europeus de raça branca, ora parecem revelar um menor apreço por outras raças e povos, e isso levou alguns leitores e críticos a falar de uma «cor da razão» e mesmo de um «racismo implícito» no pensamento kantiano.

Na palestra são analisados os documentos ou textos que podem ser invocados num sentido ou noutro, mas devidamente contextualizados  e interpretados como sintomas de uma tensão profunda que gere o pensamento do filósofo, a tensão entre um pensamento irremediavelmente situado no espaço e na condição histórica, cultural  e política em que lhe coube viver (por isso, marcado por um eurocentrismo que definia o contexto da cultura setecentista em que viveu e para a qual escrevia, mas que também soube criticar) e um pensamento próprio, verdadeiramente cosmopolita, alargado às dimensões incomensuráveis do mundo, e antes de mais ao vasto mundo humano, a toda a espécie humana, considerada em toda a sua variedade física e espacial e diversidade civilizacional (de raças, de povos, de civilizações, de religiões), que ele vê unida num grandioso projeto histórico de realização plena da Humanidade. Essa tensão entre eurocentrismo crítico e cosmopolitismo, longe de ser uma limitação, antes se revela extremamente produtiva e na verdade ela constitui a condição do pensamento genuíno, que pensa o universal mas a partir do concreto, que se abre ao vasto mundo mas a partir da própria e efetiva situação nesse mundo.

 

Cosmopolitanism: Justice, Democracy and Citizenship without Borders

PTDC/FER-FIL/30686/2017