HPhil Seminar: February 2017

February 9, 2017 6:00pm

Ética, Escrita e Resistência no pensamento de Emmanuel Levinas

 

 9 February 2017, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Sala de Investigadores do CFUL

Rui Esteves (Universidade de Lisboa)

 

«Como filosofar, como escrever na memória de Auschwitz, na memória daqueles que nos disseram, por vezes em notas enterradas ao pé dos crematórios: sabei o que se passou, não se esqueçam e, ao mesmo tempo, nunca vós sabereis.

É este pensamento que atravessa, que porta toda a filosofia de Levinas e que ele nos propõe sem o dizer, além e antes de qualquer obrigação.»

Maurice Blanchot

«Todo o pensamento filosófico repousa em experiências pré-filosóficas.»

Emmanuel Levinas

 

Resumo

Quando falamos de Emmanuel Levinas (1905 – 1995), não podemos dissociar o seu pensamento e a sua filosofia dos seis milhões de judeus vítimas do nacional-socialismo durante o Holocausto, «junto com os milhões e milhões de humanos de todas as confissões e de todas as nações, vítimas do mesmo ódio para com o outro homem, do mesmo anti-semitismo», (Éthique et Infini, 1981).

Como filósofo, como pensador, como escritor, o seu trabalho foi (e é) um dar voz por essas vítimas, um lembrar essa tragédia. É esse pensamento que porta toda a sua filosofia, para que o genocídio não seja esquecido, para que não torne a suceder.

Levinas foi um pensador profundamente afectado pela «desumanização» do humano que sucedeu no século XX. A sua obra e o seu pensamento são, por isso, além de uma reflexão acerca da filosofia ocidental, da tradição judaica e da filosofia grega, um poderoso contributo contra a barbárie ocorrida no século em que viveu.

Através da escrita, da palavra e da filosofia, o seu pensamento inscreve-se na memória de um povo, mas também de um tempo e de um século marcados por atrocidades.

Os seus escritos são escritos de resistência, de resistência pelo Bem, de resistência ao mal, numa busca incessante pela paz, pelo humano. «O humano está em busca do humano», diz o filósofo, em Éthique et Infini, (1981).

Os seus escritos privilegiam a ética, o humanismo, a responsabilidade, a responsabilidade anterior a toda a consciência, a toda a decisão, a toda a escolha, a todo o compromisso. Uma responsabilidade até à substituição, incomensurável, ilimitada.

Como sujeito responsável, como hóspede, como refém, refém de uma «passividade mais passiva do que toda a passividade», dá-se a exigência, o dever de falar; o dever de escrever, o dever de resistir, o dever de dizer.

É por entre os livros de Levinas, através do seu pensamento, da sua filosofia, do que por ele foi dito, através do dizer aí inscrito, que procurarei conduzir a sessão, sessão que, espero, possa trazer à reflexão um pouco do tom de um pensamento, um pensamento humilde, autêntico e corajoso, votado ao infinito, como foi e é o de Emmanuel Levinas.